Ô de boa tarde, pra quem é de tarde,
Ô de bom dia, pra quem é dia,
E boa noite, pra quem é noite,
E porque não?
Ô de bom tempo, pra quem tem o tempo,
No compasso de seu passo
E no pulsar do coração.
Ocês me dão licença
Pra ieu primeiro me apresentar,
Antes que a força do cordel se aumente,
Primeiro de minha raiz, vou falar
Com licença mais uma vez,
Estou a me apresentar,
Anastácia é a minha graça
Na missão da poesia estou aqui a falar.
Venho de lá de Grapiúna,
Terra onde nasceu nosso Jorge Amado.
É Itabuna! Cidade banhada pelo Cachoeira,
De nascente do Itaju do Colônia,
Também é terra de Cyro de Mattos.
Assim como o escritor Adonias Filho,
Todos escritores são renomados.
Ah como essa região é tão rica,
Só de pensar, me dá frio na barriga,
Se lembrar das poesias de Sosígenes Costa?
Com suas cores luminosas?
E seus versos coloridos? Nossa Senhora!
É cidadão ilheense, minha gente!
Aqui nesta terra ele viveu!
São Jorge dos Ilhéos!
Berço de cultura e natureza,
Terra de povos e de filhos,
Terra de muita força e beleza.
Se eu olhar pro mar, venho de pescador,
Timoneiro eu sou.
Se eu olhar pra terra,
Nosso Sinhô!
Sou Tubinambá, eu sou índio,
Quilombola, suburbano e ameríndio. Miscigenado.
Gente desta terra que me pariu,
Filho daqui e do Brasil.
Ô minha Bahia!
Ainda lembro do tempo do açoite, Lerêe,
Dos estivadores eu também sou.
Tantas sacas de cacau eu carreguei no porto,
Dos cacaus que pisaram os filhos meus,
Janira dia-a-dia de chapéu,
Vevia no meio das mata preservada,
E tirava do pé o manjar de mel.
Nosso cacau!
Tão lindo! Meu olho brilhava de ver,
Os cachos de ouro tudo reluzente,
Iluminava,
Um brilho intenso que vi morrer!
Os pé tudo doente, a bruxa foi solta,
Então apodreceram assassinados.
Foi um plano bem tramado...
Mais de três milhão de pessoa como eu,
Foi prejudicado! Saímos das roça, tudo abandonado.
Perdidos vagueamos pela cidade,
A procura de um migué.
Mas filhos daqui nós é!
Nasce aqui nossa identidade.
Caminhamos mesmo assim,
Mesmo quando em São Paulo,
Temos notícias daqui.
E tem mais rumores por aí,
Que agora querem a natureza, pra virar um pó só!
E dirribarem nossas arvre, que nois também plantou.
Misericórdia!
Porque rico em minério, nosso chão é...
Querem mamar nas teta de nossas vaca,
E não pagarem nem um vintém!
Mas filhos daqui nós é!
Preservada por tanto tempo,
Nossa Mata Atlântica,
Terceira maior biodiversidade do mundo, meus senhores!
Pra se acabar assim do nada?
Ah se não fosse a cultura dessa terra,
Pra ieu não ficar aperreada!
Quando chego no samba de roda,
Meu bem! Toda tristeza é lavada.
Porque eu sambo com a tristeza e esperança
Nesse chão que Deus me deu.
Pra passar e poder sentir,
Uma cadência de alegria e euforia...
Assim deveria fazer Joãozinho Alfaiate e os outros sambistas,
Grande músico daqui de Ilhéus,
Joãozinho Alfaiate tocava samba, cantava
E também fazia bolero.
Na Avenida Itabuna,
Era onde ele vadiava.
No Berro D’água, onde hoje é o Opaba,
Era onde o samba acontecia,
Em torno da década de 50,
O pé no salão todo mundo arrastava.
Êta viola danada, todo mundo é do samba meu bem!
Arrastava o pé, dançava, bolerava...
Fazia samba, o que veio do semba,
Fazia samba Seu Gordura
O mestre de todos os cantores, - Já morreu
Odraude fazia também, - está vivo,
Assim como Antônio Muniz - está vivo,
Mão Branca fazia também - está vivo
Seresta pro samba fazem bem,
Gilberto Sena e outros mais.
Foi na Conquista que Joaõzinho Alfaiate viveu sua vida,
Deixou seus frutos: O Clube do Samba
Jorge Ivan,
Sérgio Nogueira,
Herval Lemos,
Cláudio Vieira,
Gil Lucas,
Agda Silva
E outros mais.
Tem mesmo outras pessoas,
Que eu me esqueci,
E tem mais gente por aí.
Filhos daqui nós é!
Nasce aqui nossa identidade.
Pra passar e poder sentir,
Uma cadência de alegria e euforia...
Ô minha Bahia, vivo em ti,
Toda hora, todo dia.
E assim também deveria fazer
O mestre de capoeira de Ilhéus mais antigo
O nome dele é mestre Virgílio!
Em Olivença dá aula de angola,
E nossa capoeira revigora.
Com sua mandinga,
Seu dendê e remelexo bambo,
É sábio e mestre este ser humano,
Ele nos diz que, dois pontos:
“A capoeira é tudo o que faz você.
E antes de estar no corpo,
A capoeira está na mente,
Ela acompanha a gente.
Quando chego no Terreiro,
faço a minha obrigação.
Rezo para Deus primeiro,
Angoleiro e Africano da Nação.
Aos Senhores eu peço licença para vadiar nesse salão”.
O mestre João Grande graduou Virgílio contramestre.
Conviveu com vários mestres,
Criou a União dos Capoeiristas do Sul da Bahia
E realiza um encontro internacional chamado
De Capoeira Roda da Paz.
Eu digo que o dendê está no sangue,
E capoeira tem axé!
Meu camarada, não se engane!
Capoeira tá no pé.
E na mulher!
Mas é claro.
O Movimento Feminino de Capoeira está aí,
Todo mês elas vêm se reunir,
A maioria das mulhé, tudo daqui,
Se ajunta tudo, faz roda, samba,
Vai no berimbau,
Entra pro jogo, elas dança
Canta as ladainha e balança
Capoeiragem das mulhé de toda cor...
E filhas tudo daqui!
Pois a capoeira me disse assim:
- Ocê largue de besteira e preconceito
Se apoquente e não se avexe:
Capoeira já raiou. Visse?
É, eu sou daqui do nordeste,
Descendo de Maria Bunita,
A Mulher de Lampião,
Mas não sou cabra e nem da peste,
Porque sou mulher e arretada,
E não tenho pacto com o cão.
O fi do cabrunco, bicho tinhoso!
Fique longe, vá de retro coisa feia!
Pro seu bico eu não sirvo.
São Sebastião é meu guia.
O padroeiro desta cidade!
Que curou dos índios as enfermidades,
Quando chegaram aqui os brancos,
Misturando suas etnicidades.
Os cabocos começaram a morrer,
E pra São Sebastião fizeram promessa:
Que se ele devolvesse a saúde do povo indígena,
- Que vem de lá de Olivença,
Se ele curasse as doença que vei dos branco
Um Igreja seria erguida à São Sebastião,
E os índios teriam nele uma grande devoção.
E assim foi o que se fez, o povo foi curado,
Daí foi que nasceu a puxada do mastro
Os machadeiro de Olivença, que veve nos mei do mato,
E o povo antigo de lá pode confirmar o que estou dizendo.
O porque daquele mastro.
São Sebastião um santo muito devotado,
É um guerreiro, forte e bondoso,
Foi soldado mártir pela causa de Cristo Jesus,
Flecharam Sebastião seu corpo,
Açoitaram ele em tronco,
E não bastasse,
Um lança atravessou seu peito.
Por Jesus Cristo Sebastião morreu,
Afirmando o amor de Deus
Em todo campo de batalha,
São Sebastião!
Santo e guerreiro!
Nosso padroeiro,
Intercede à Deus pelo seu povo!
Esse povo amado,
Desta terra às vezes esquecida,
Às vezes maltratada...
Mas filhos daqui nós é!
Ói, eu vou dizer uma coisa pra ocê,
Abençoa toda essa gente,
E que tenha muita alegria em suas casa,
Em suas famía, que seja unida, saúde e paz...
E tenha muita luz nas suas estrada.
E que não se esqueçam dos cantos dos passarinho,
Que fica assobiando junto no som do tempo,
A vida só tem sentido se viver o amor.
Que tu sempre tenha um tino,
No compasso de seu coração,
E mesmo quando repentino,
Nas voltas que o destino dá, né?
Sempre tem um sino badalando no infinito.
Agora ocês me dão licença,
Pra ieu me arretirar,
É uma alegria muito grande,
Este cordel eu recitar,
E essas coisa poder dizer
Aqui no centenário de Jorge Amado,
E que todo mundo seja amado
Amor e paz pra você.
Salve!
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