Um grupo aspirante de jornalistas viajou para o sertão nordestino apenas com uma missão: buscar relatos de pessoas que foram retiradas da terra natal para ver a água inundar o lugar que nasceram, construíram suas histórias e constituíram suas famílias. É no estado de Pernambuco, nas agrovilas de Petrolândia, que os estudantes de jornalismo ansiavam o encontro de uma história fascinante – inclusive eu, claro.
Não muito diferente da sensação seca que arde o nariz de onde moro, o sertão nordestino amolece a matéria humana com seu calor escaldante. A terra é poeira que se aloja entre os dedos e a água é um presente nunca tão desejado com veemência. Talvez fosse melhor desistir, forjar uma dor de cabeça e ficar dentro do ônibus da universidade com o ar condicionado – bendito seja. Mas não dava para pensar nisso, seria ingrato negar minha própria condição, esta que é igual à daqueles sertanejos: a condição de ser humano.
Dona Dedé foi quem nos acolheu logo a princípio, quando chegamos à Agro Vila I. Parecia um bando de criaturas estranhas adentrando um ambiente desconhecido. Os verdes, amarelos e roxos de nossas roupas se contrastavam com o marrom que predominava no lugar. As máquinas digitais, mp3, câmeras nas mãos, não combinavam com a simplicidade que regia aquela comunidade. E eu, com minha câmera inquieta, não pude deixar de fotografar um garotinho, pés descalços, que olhava inocente e desconsolado, para nós do lado de fora. Segurava-se numa grade, e eu então, flagrei! Estávamos invadindo uma realidade que não era a nossa, penetramos num lugar que não era nosso. Por isso a alusão às criaturas estranhas. Mas, passou. O calor se encarregou de formar um todo só, a gente como eles, eles como a gente. Integrou, mesmo que por pouco tempo, uma condição de igualdade, e um sentimento de dor. Não pelas condições climáticas e não urbanas daquele lugar, mas um sentimento que extraia daquela realidade uma consciência. Essa doía. Era mais latente quando lágrimas escorriam dos traços no rosto daquela senhora, que humildemente abria sua vida para nós.
O primeiro momento com Dona Dedé, foi o mais emocionante. Porque os choques de realidades gritavam, e a história fascinante que buscávamos, estava ali, diante de nós, aberta. Perguntamos qual terra que era melhor, se era em Barreiras (hoje uma barragem) ou a que ela(Dona Dedé) recebeu para morar(a agrovila I). Com olhos cheios d’água, respondeu: “Não devemos falar mal de nossa terra, mesmo que ela não seja boa. Porque a terra é como uma mãe, que não tem como alimentar os seus filhos”. Confesso ter esperado outra resposta. Afinal a pergunta feita não foi ingênua, queríamos que ela esbravejasse o quanto aquele lugar era pobre e seco, que não tinha a fertilidade que a cidade natal dela oferecia. Era notório que a terra da agrovila não era boa, viver ali deveria ser ruim, e ainda mais numa dimensão em que o indivíduo se via distanciado de seus amigos e vizinhos, destinados para outra agrovila - bem afastada daquela em que se encontrava. A fúria que eu esperava que Dona Dedé revelasse foi convertida num momento de silêncio atordoante. Foi nesse momento que sentimos dor, e eu, vergonha. Vergonha de ter esperado dela uma reação violenta, de protesto, de fúria. Mas não. Aqueles segundos foram necessários, precisamos ficar sem graça com aquela resposta e perceber que aquelas pessoas não ambiciavam nada que viesse a ultrapassar sua realidade e nem a dos outros. Ser feliz parecia não uma utopia, mas uma concretude estampada no rosto que demonstrava esperança, e nos olhos que transpareciam uma sede de viver.
A situação nos expulsava daquele clima. Saímos andando, como uma romaria, em busca de novas histórias. Entramos em algumas casas e tiramos fotos. E todas as histórias eram parecidas. O que era diferente era a casa, os olhos, a cerimônia. Eu perguntei para uma das moradoras da Agro I, se algum dia Barreiras – cidade de origem, agora inundada – ressurgisse, ela voltaria. Com toda convicção respondeu que sim. Mesmo reconhecendo que suas condições de vida estavam melhores em termos financeiros atualmente, ela, num primeiro ato não pensaria duas vezes em retornar àquele passado, agora debaixo d’água. Enquanto sua filha relatava a história e o processo de mudança ocorrida há vinte anos atrás, o sertão me convidava a admirar sua beleza. A voz daquela moça começava a ficar cada vez mais distante, ainda que eu tivesse do seu lado. A cena que eu me encontrava saia de foco, levando-me para uma ótica externa. Uma mulher, velha, escorada na janela olhava curiosa para aquele grupo invasor de jovens. Seus olhos sorriam curiosidade e sofrimento, o cotovelo apoiado na janela com a mão em descanso, revelava cansaço. E ela olhava atentamente para a casa da vizinha, não parecia se intimidar com os cliques da minha câmera. As entrevistas já estavam terminando, só deu tempo para flagrar a jovem mocinha encostada na porta ouvindo atentamente sua mãe relatar uma história que ela não viveu.
Depois, Dona Dedé nos levou para a casa de Dona Socorro. Era uma casa simples, como todas. Mas aparentava aconchegar mesmo na simplicidade. A princípio ela ficou receosa. Afinal, não estava tão acostumada com uma visita dessas – um bando de gente caçando relatos. Depois, uma voz masculina vinha repetidamente: “Pode entrar. Pode entrar. Pode entrar”. Era um rapaz, jovem, mas acho que esquizofrênico. Enquanto Dona Socorro nos falava receosa de sua vida, ele, que denominamos “Paraguai”, ficava conversando sozinho, parecia querer chamar a atenção e atrapalhar nossa conversa. Ficamos, inclusive, incomodados com isso, afinal atrapalharia o áudio da câmera que estava filmando. Mas ignoramos sua presença, e ele repetidamente exclamava frases sem nexo, respostas sem perguntas e pensamentos que pareciam pular de sua mente através da voz. Adentramos o quintal de Dona Socorro. Tinha papagaio, galinha, pinto, cachorro, fogão de carvão, e até índio – esse ficava mais no fundo do quintal, mas não apareceu, apenas ficamos sabendo que tinha. Dona Socorro mostrou-se uma mulher batalhadora, alegre, brincalhona e também de um coração enorme. Adotou muitos filhos, por pura bondade. A mãe de uma garotinha não teve condições de sustentá-la. Então Dona Socorro “pegou para criar”. Já grandinha, vivia grudada na barra de sua saia. Dona Socorro fez isso com outras crianças, inclusive o rapaz Paraguai (Denominamo-lo assim, porque ele repetia o tempo todo a palavra “paraguai”). Tinha um garoto de colo, outras garotinhas, todas lindas e de olhares doces. No quintal havia uma mulher, segundo se sabe, descendente de índio – e parecia mesmo. Eu tentei não deixar nenhum detalhe desses escapar da câmera fotográfica, e mesmo que por um dia consegui fotos interessantes.
A outra casa que visitamos foi a de um senhor. E quem passou a caminhar junto à “romaria”? Paraguai! Ele parecia querer fazer parte da equipe dos aspirantes jornalistas. E depois, familiarizou-se de tal modo, que a gente se comunicava por palavras: “Pau! Noção! Tabajara! Bahia!” No fim, virou motivo de resenha. Mas foi engraçado mesmo. Voltando à casa do tal senhor, ele não parecia tão disposto a nos responder perguntas. Emburrado e de má vontade disse para seu filho: “O que é que eles querem? Coisa boa é que não pode ser. Isso, aqui não chega”. Logo a princípio me senti incomodada, e sentia que estava incomodando. Um ar de panos quentes aparou a situação com a descontração de alguns colegas. Érick entrevistava aquele senhor, enquanto que do lado de fora, sentada numa pedra, eu derretia no calor escaldante.
A despedida foi intrigante. Goiabas adocicaram meu paladar, presentes de Dona Dedé e Dona Socorro. Pareciam duas irmãs. Mas como vizinhas, refletiam uma amostra de como aquelas pessoas se relacionavam: com proximidade e respeito. Parecíamos filhos também adotivos daquelas senhoras, mesmo que por tão pouco tempo. Porque aparentava ser assim que as pessoas se sentiam nas suas companhias. Tchaus se sacudiam com as nossas mãos. E elas em retribuição, sorrisos sem preços. Estaria eu deixando para trás, talvez, um lugar que nunca pudesse voltar a ver; pessoas que me acolheram e que eu nunca mais soubesse notícias; um chão seco, que nunca mais pudesse sentir nossos pés estrangeiros. O cheiro do ônibus já começava a anunciar a hora da partida. E quem se inclinava a nos acompanhar? Paraguai! [Risos] Mas não foi dessa vez. Uma foto de Dona Dedé com a turma e nada mais. Estava de volta para a estrada.
A sensação da saída daquele vilarejo me deixava algum pensamento sobre essa experiência. A vila poderia refletir um contexto de histórias diferentes, parecidas, esquecidas, ou até evitadas serem lembradas. Mas no fim, resplandecia um pensamento de totalidade: Um grupo de pessoas retiradas de sua terra natal para um lugar distante e mais seco. Longe de ex-vizinhos e amigos, convivem entre si com um resto de esperança que reside nos olhos e uma sede constante de viver um dia após o outro, sem esperar muita coisa do amanhã. A Agrovila I de Petrolândia não seria tão rica, se não guardasse em si um tesouro de histórias de vida - algumas esquecidas - e lembranças vivas de um passado presente na memória.
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