sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

PARA EMBRULHAR PEIXE

O jornalismo conhecido, na atualidade, muito deve à imprensa colonial. No Brasil, a regalia política do Império, os acontecimentos sociais e a exibição de luxos da sociedade eram os conteúdos dos jornais. É de se considerar esse tipo de jornalismo primitivo, supérfluo. Mas é de se relevar também, já que a cultura jornalística estava se desenvolvendo, e a imprensa colonial não representaria por toda a vida a essência da profissão – ainda bem. Apesar de que, começar puxando o saco da Corte, não é tão animador.
Pode-se ainda hoje encontrar jornais impressos parecidos com o da imprensa colonial. Não em relação às colagens artesanais, mas em relação ao jornalismo secretário do poder: aquele à serviço da política e consumido pela própria elite. Não é assustador que isso aconteça, porque assim começou no Brasil – faz-se jus às origens. O que é de assustar é folhear jornais poluídos de propagandas, textos medianos e 90% das matérias sobre política.
Em Vitória da Conquista, o perfil jornalístico descrito acima coincide com os jornais da cidade. É de desanimar que um município com 308.204 habitantes, segundo o IBGE, cinco instituições de ensino superior, um pólo atrativo comercial e agropecuário, possua apenas três jornais impressos locais, e ainda “queridinhos” dos gabinetes.
Recheada de um público formador de opinião, Conquista é carente de notícia independente. Por outro lado, as pessoas não têm hábito de ler jornal. Dificilmente se vê alguém indo às bancas comprar um. Além disso, os que lêem são assinantes de um jornal da capital, os próprios anunciantes do jornal local - para admirar sua publicidade estampada logo na primeira página, frente à manchete - ou aquele interessado em compra, aluguel ou venda de um bem, seja imóvel, veículo ou HD 320 de memória.
Iniciativas em prol de um jornalismo independente, foram por água abaixo por falta de investimento. Um jornal semanal foi criado por recém-formados em jornalismo na Uesb, e durou apenas quatro meses. Faltou quem investisse, mas o que não faltou foi coragem. Incomodou a muita gente por não estar tão submetido à publicidade e nem aos incômodos interesses políticos. Apesar da boa intenção, não resistiu.
Jornais impressos tendenciosos que monopolizam a informação fogem à premissa básica de responsabilidade pública e social que reveste o jornalismo. Esse cenário vigente retarda o crescimento das pessoas enquanto cidadãs responsáveis e a promoção da liberdade individual.
Para completar o quadro, editores colocam a publicidade acima do jornalismo sem equilibrar os lados, vendem as matérias e escolhem as fontes por interesses e benefícios. Isso compromete a credibilidade e sobrevivência dos jornais impressos - já ameaçada em meio à era digital.
A luta incansável pela democracia não deve ser sobreposta por panos quentes e peneiras para tapar os inúmeros sóis escancarados em nome da “pura” nobreza jornalística. O jornal de qualidade deve ser independente do poder para denunciar as mazelas da sociedade, e não se converter em diário do poder político vigente, mas refletir nas suas editorias os verdadeiros problemas e assuntos de uma cidade, e não apenas a política.

Anna Karenina

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