Num típico bar de esquina, o sol quente e a boca seca me convidavam a olhar para o fundo do copo da cerveja gelada. O que tem para fazer hoje? Na verdade, estava a fim de escutar uma bossa nova. Mas é que a bossa estava velha, o lugar que combinava com ela havia fechado.
Aí então, pensei no samba, aquele chorinho malandro da viola que boas mãos fazem. Mas as ruas estavam vazias, as pessoas frias, olhares tristes dobravam as praças. É que o samba nem mais de tristeza falava, apenas o silêncio atordoava a minha euforia contida.
Os ouvidos queriam a cor da música, os olhos o cheiro da arte e a boca os versos mais inusitados. Maldito silêncio! Onde foi parar a manifestação da cultura? Venham becos para os centros, quero os guetos misturados aos meios, índios fora das tocas.
Faça-se abrir a roda para o gingado sair mais bonito e a ladainha libertar as canções esquecidas. De tanta coisa a vista, já enxergo o palco e os artistas atuando as cenas da cultura local.
Como uma tela preta de cinema, letras garrafais na mente me argüiam: “Onde estava você nesse enredo todo”? Uma sombra tapou o sol que esquentava minha cerveja. Era o garçom perguntando, “vai querer a saideira”?
Anna Karenina
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