quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Meu pai,

Vou aproveitar o dia de hoje para dizer algumas coisas que estavam guardadas no meu coração. E agora, tentarei transpô-las para este papel tão simples. Eu já vinha esperando por esse dia por certo tempo, período que amadureci a idéia de escrever tal carta. Enfim...
"Temos caminhado em direções opostas, é verdade, mas perseveremos". Faço destas suas palavras- carta que me mandou no natal de 1994 - as minhas. Dentro de minhas limitações e àquelas impostas ao curso da vida tento (mesmo que para você possa parecer irrisório) perseverar. Confesso ter pensado em desistir frente à resistência que encontrei diante dessa "missão" que me ative em cumprir. Mas me recompus aos meus sentimentos verdadeiros ao ponto de não me envolver pelas trevas da fraqueza.
Por isso, estou aqui para dizer que gostaria de levantar uma bandeira de paz entre nós, para que umas relação de pai e filha possa se fazer real de modo saudável e positivo. Sei que para isso, não depende somente da minha vontade e querer fazer acontecer, mas no que depender farei o melhor para nós, dentro do que for "aceitável", ou seja, até onde eu tiver espaço e me sentir aceita. Sei também, se o for do seu desejo, que isso não acontecerá da noite para o dia. Um tempo vai levar para que as coisas tomem seus devidos lugares, tanto você quanto eu, possamos refletir a nossa conduta do passado para amadurecer a conduta do amanhã.
Confesso que não sei como você vai encarar essa carta. Na realidade não sei se você está preparado para absorver de coração o que estou escrevendo. Tenho muito medo de sair machucada disso tudo, mas eu prefiro correr esse risco a conviver com a dúvida cruel de não saber como seria se eu tivesse feito. Eu não suportaria, e também não dava para esperar mais.
Eu também gostaria que você me conhecesse, como sou. Às vezes tenho a sensação que você pouco sabe de mim, justamente pela distância que impusemos sobre nós. Não sei se te preocupa me conhecer... Espero que sim. Eu queria poder participar e me fazer presente na sua vida, te conhecer, aprender. Mas para isso, eu preciso ser bem-vinda, desejada. Não compete a mim sair desbravando caminhos, antes as rotas de acesso precisam ser sinalizadas!
Fico muito triste quando você ironiza minhas ações - seja o que eu digo, ou o que faço; quando você se utiliza do sarcasmo para prevalecer num diálogo. Isso só me faz me afastar de você e com que cada dia mais eu enxergue meu pai como alguém que não gosta de mim. Sem contar que você me julga hipócrita, esquecendo que a ironia é uma forma perversa de hipocrisia.
Meu pai, já tentei negar nosso vínculo, meus sentimentos, mas me deparei com uma porta. É uma porta camaleão. Que se nós quisermos pode se tornar um muro. Mas se o desejo verdadeiro da perseverança - aquele que você fez referência na carta de natal - for sincero pode se tornar uma porta. A porta que vai abrir o caminho para o encontro de nós dois. Isso só vai acontecer se dermos vazão ao amor que existe (eu sei) em nós, onde o orgulho, a arrogância e a vaidade não terão mais vez na nossa caminhada. Eu sei que o que eu estou dizendo parece um conto de fadas, mas eu não faria isso se achasse que fosse impossível. E eu sei que é possível, porque eu acredito que é. Se não for nesta encarnação, vai ser em outra. Mas o que ensina a doutrina espírita é que o indivíduo dotado de inteligência e sabedoria não vai adiar uma vontade que é real e a provação que lhe foi escolhida. E eu sei que somos pessoas esclarecidas, ao ponto de não deixarmos que qualquer sentimento ruim prevaleça sobre nós.
Eu gosto muito de você e sinto sua falta. Queria ser mais presente em sua vida e queria você presente na minha. Às vezes fico lembrando da minha infância e como era nossa relação. Foi o momento mais feliz que passamos juntos. A gente ia para a fazenda; praia; jogávamos bola e frescobol; lembro o dia que você enterrou eu e Júlia na areia; quando eu e Mathe ficamos em cima do capo do seu carro enquanto você dirigia; quando você me colocava para guiar o carro e eu sentada no seu colo... E tantas outras situações que me faziam feliz.
O tempo que passou parece ter colocado essas experiências no campo de uma nostalgia profunda, como um sonho. Mas é isso que eu guardo dentro de mim, como a prova de outras realizações possíveis. É isso que me faz acreditar no amor.
Espero que essas palavras ecoem profundamente no seu coração e faça você refletir. Eu não estou pedindo nada a que lhe venha chatear. Não é meu desejo. Só anseio pela voz do seu coração. Porque foi atendendo à voz do meu coração que estou escrevendo o que escrevo.
Desejo sua felicidade, saúde e paz. Que Deus providencie mais vitórias para a sua vida, seja no campo profissional, seja em qualquer outro.
Feliz aniversário. PAZ! Um beijo
Sua filha,

Anna Karenina Vieira

"Tudo vale a pena se a alma não é pequena" - Fernando Pessoa.

Um comentário:

Unknown disse...

Prima, não deixe que nenhum dos seus anseios seja abalado, ao ponto de desisitir, por obstáculos que a fazem fraquejar. Seja forte, mas haja com cautela, amor, tolerância e calma na busca dos seus ideais. Tem uma frase que levo no meu coração e gostaria de compartilhar com você: "Seja mais humano e solidário, pois cada pessoa que você cruza está travando algum tipo de batalha.".
Amo você!!
Beijãoo
Su