sexta-feira, 9 de novembro de 2007

DITADURA! Só que dessa vez, é a da beleza.

Oriundo dos negros africanos, índios, orientais e dos brancos imigrantes, o biótipo brasileiro se define em uma mistura heterogênea de traços bastante peculiares. Esse aspecto é notado nas formações estéticas dos homens e mulheres que habitam o Brasil. A mesclagem multiétnica garante por si só uma beleza brasileira que se diferencia das demais no mundo a fora. Por possuir uma diversidade ilimitada, o Brasil parece carregar dentro de si o coração do mundo. E quanto a isso só temos a comemorar. Afinal de contas, olhar todos os dias para pessoas com o mesmo rosto não parece ser nada bom. Ainda bem que aqui no Brasil não temos esse problema. O que não falta é diversidade.
O que entra em contradição diante de tanta diversidade é o padrão de beleza que vem sendo estabelecido na sociedade brasileira. Ora, é até incoerente consolidar um modelo de beleza dentro de uma formação social e étnica como a nossa. O que se devia enaltecer de melhor, que é justamente a beleza singular brasileira, dilui-se pela ditadura da aparência cada dia mais forte. O que muito tem se observado é a valorização exacerbada que garotas e garotos têm dado à estética e aos moldes únicos a que eles devem atender. A moda entra como um elemento de peso nesse aspecto. Vestir roupas de determinadas marcas e do jeito que a mídia – pelas novelas e propagandas – têm imposto é uma questão não de escolha, mas de inclusão dentro de determinado meio social. E isto é grave. Atender sempre ao que a mídia massifica e consequentemente impõe, significa perder a identidade individual de ser – seja da própria cultura, seja do modo como se é de fato.
O ser humano desde sempre, tendeu para a formação de grupos de acordo com suas semelhanças. E o que caracterizou essas formações foram justamente as diferenças. Até aí tudo bem. Mas chegar ao ponto de impor um modelo de comportamento e de beleza representa agredir a liberdade de cada um. Não que isso venha a se tornar generalizado, mas o indivíduo social não precisa ser condicionado a ter que aderir a essa condição para ir e vir sem ser discriminado.
A mídia aliada ao mercado forma uma sociedade de consumo que caminha cada vez mais para essa uniformização estética. E esta sociedade que consome tanto quanto a mídia, ou até mais, é responsável por insistir nesse modelo. É um ciclo contínuo que pode resultar no dilaceramento de culturas e diferenças, se for realmente levado a sério e visto como uma tendência inofensiva dentro da sociedade. Preservar a cultura, transparecer a personalidade pelo modo de arrumar o cabelo, de vestir, de falar e de qualquer outra manifestação de ser por que assim o gosta, requer originalidade dentro de um monte de bonecas ou bonecos iguais. O incrível é como essa sociedade de consumo que alimenta os padrões de beleza da mídia, faz para ser do “mitiê” e apontar quem não pertence a esse padrão - até por uma questão de status social - para demonstrar “superioridade” por ser assim.
O que é engraçado é pensar o que vai fazer essa sociedade de consumo para se destacar quando conseguir uniformizar todos em um molde único? Seria retornar as origens? Sem esticar o cabelo, ou colocar botox? É uma alternativa. Mas até lá vale a pena pensar se o que é feio ou o que é bonito é o que cada um vai procurar de acordo com seus estímulos, diferenças e atrações, sempre individuais. A beleza não está no que alguém diz que é ou não. A beleza está na própria coisa: diferente, mas própria e original.

Anna Karenina

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