sábado, 13 de outubro de 2007

GIRÂNDOLA E O MEDO

Artifícios é o menor planeta do sistema Girassol. Por isso, é composto por um único continente, um único país, um único estado e uma única cidade: Girândola. Nesta cidade existem um milhão de mutantes, de variadas formas, tamanhos e aspectos. A cultura girandolênse é expressa pelos hábitos de relações que existem entre estas criaturas, algumas bastante esquisitas. Eles primam pelo amor fraternal. Dessa forma, todos os seres de Girândola são amados, e amam uns aos outros. Esse princípio-valor é o responsável pelo contínuo humor alegre da população.
A cidade de Girândola é organizada em dez gigantes parques de diversões. Cada um com seus alojamentos de treillers(o lar). Um dos parques mais cotados é o Mutant’s Parque. É nele que mora o homem das rodas gigantes e dos fogos. Jack é quem coloca em funcionamento as vinte rodas gigantes do parque em que trabalha. Esta tarefa não é fácil. Afinal, as rodas gigantes são as mais procuradas. De cima, os mutantes podem ver toda a cidade colorida e iluminada, as crianças dando piruetas de emoção, os velhos dançando com os sentimentos, os jovens cantando com amor e os adultos dando cambalhotas de liberdade. No momento de recolher, Jack solta uma seqüência de fogos de artifícios sinalizando a hora feliz de levar para a cama a população girandolênse para uma bela madrugada de sono.
É aí que entra a importância de Jack. Ele é um mutante legal, super popular e adorado pelos amigos. O que Jack mais queria era garantir a felicidade constante do sono da cidade. Por isso sua maior ambição, era ser o que sempre foi: o soltador de fogos e o homem das rodas gigantes. Para ele, sua contribuição era muito importante, e era feliz assim.
Em uma das suas alegres noites de trabalho, Jack olhou para o céu do sistema de Girassol e sentiu um arrepio tomar sua grotesca armadura de ferro. Alguma coisa estava diferente naquele dia. Jack olhou para as crianças, os velhos, os adultos, via a expressão de alegria neles, e sentiu-se envergonhado por não sentir na mesma proporção aquela mesma alegria. Ele estava disperso, o céu soprava um vento frio... Jack não poderia negar esta sensação estranha.
No momento em que ele ia soltar os fogos de artifícios, um medo tocou seu coração. Ele começou a pensar se realmente aquela felicidade que parecia não ter fim, realmente seria eterna. Duvidou. E na dúvida, inseguro, resolveu deixar o céu de Girândola sem os fogos de artifícios, a noite crua, nua, sem luzes de emoção. Naquele dia, Girândola estava mais pobre, mais pobre de amor. Jack estava diferente. Ele duvidou do amor e da força que dava vida à Girândola. A madrugada não fora bela e o sono daquela noite de cada girandolênse, não fora tão feliz. Jack acordou mais cedo que toda a cidade, saiu do seu treiller e viu um susto. Pela primeira vez sentiu este sentimento: um susto. Girândola estava cinza, a energia acabou, os brinquedos já começavam a enferrujar com a chuva torrente que caia, o céu estava marrom. Aos poucos os mutantes saiam de seus treillers, devagar, lentos. Tristes, olhavam aquele cenário, e passavam a experimentar um tanto de sentimentos ruins, era um desconforto conviver com esse sentir. No fim do dia, era comum ver os irmãos brigando, os adultos roubando e os velhos caducando. A violência se instaurou,












a inveja se tornou intrínseca, o ódio, a vingança e o medo destruíram Girândola.

A partir de então, Jack já não se lembrava mais do mal que fez, porque os tormentos eram tantos, que ele esqueceu que um dia foi feliz. E agora, marchava para o individualismo, seu tórax era revertido não mais de um coração, mas de espinhosas granadas para a guerra, e o que levava nas mãos não era mais amizade, mas uma mão cheia de dinheiro
para comprar o silêncio da dor. Girândola se tornou isso.

Um isso de desamor, desunião e confronto. Os mutantes esqueceram que um dia foram felizes. E, anestesiados, hoje marcham para o nada.

Anna Karenina Vieira 04/10/2007

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